quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Bicicletas no Canadá e medo em São Paulo

Nos últimos anos, trabalhei em uma forma de contratação "cinzenta" denominada "PJ", ou seja, eu tenho uma "empresa de eu mesmo" que "prestava serviços" para meu ex-contratante. Como não vou mais trabalhar neste formato, iniciei o processo de fechamento da empresa.

Hoje tive que ir ao cartório para reconhecer firma e à empresa de contabilidade para entregar este documento. Como o dia estava bonito, estou desempregado e adoro pedalar, fui de bike. A idéia era amarrar a bike em frente ao cartório mas, na hora H, não tive coragem.

Eu sei que foi pura paranóia, já que tinha vários motoboys no estacionamento, mas não consegui. Acha que uma vida inteira em São Paulo me deixou traumas demais:

  • Quando eu era criança, meu maior medo era ter minha bicicleta roubada. Um dos meus irmãos teve a bicicleta roubada na porta do supermercado. Um dia, entrou um sujeito no quintal de casa de madrugada e roubou a bicicleta de meu outro irmão. Meu sobrinho teve a minha bicicleta roubada com coronhada na cabeça.
  • O carro do meu pai foi roubado de mim em um dia que fui comprar um jornal para procurar emprego ;(
  • Já fui assaltado 5 vezes
  • Meu carro foi arrombado (porta amassada) para levarem o aparelho de som.

Em São Paulo existem estacionamentos de bikes onde ficam "menores aprendizes" olhando as bikes, portanto acabei parando lá.

Na minha recente viagem ao Canadá vi grande uso de bicicletas. Agora que fui procurar umas fotos, notei que EM MUITAS fotos tem alguém passando de bike.

Montreal:
As pessoas normais usam, não só os loucos.

Paraciclo - Centro

Paraciclo - Rosemont

Paraciclo - Metrô Vendôme


Paraciclo - Porto

Bike amarrada na árvore

Vi pela cidade inteira bicicletas amarradas em qualquer coisa.

Ottawa: 
Paraciclo mais "formal"

Este modelo de paraciclo é bastante comum no centro de Ottawa.

Mas lá também amarram em qualquer coisa. Não visitei fora do centro.

Ville de Québec:

Paraciclo - Marché du Vieux-Port

Lá também tem bikes amarradas.

Um dos motivos porque quero me mudar para o Canadá é poder ter menos medo da violência. Sei que lá roubos de bicicletas também acontecem, mas acredito que seja bem menos frequente.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Procurando emprego


Decidi procurar um emprego mais técnico, de forma a me atualizar na prática sobre as novas tecnologias na minha área de atuação. Eu sei que no Canadá não irei arranjar um emprego "de chefe", portanto é melhor botar a mão na massa de novo. Além disso, é o tipo de trabalho que eu realmente gosto de fazer.

Outro ponto é que desde 1996 eu não "garimpo" um emprego. Fiquei naquela empresa até 1999 e desde então todos os meus empregos foram por indicação.

O primeiro passo foi atualizar meu currículo. A última versão que eu tinha feito ainda tinha um enfoque "de chefe", portanto precisei refazê-lo com um enfoque mais peão "trabalhador". Após umas três versões diferentes eu ainda não estava satisfeito e, como citei na postagem anterior, li um livro sobre a confecção de currículos.

Fazer um currículo é um exercício de auto análise: O que realizei? Por que isso é importante para quem vai ler o currículo? O que vale a pena citar e em qual profundidade? NO QUE EU SOU REALMENTE BOM? O que eu tenho que é mais valioso que o dos meus concorrentes?

Consegui redigir as partes mais críticas e atualizei meu currículo em um grande site de empregos. Amanhã fará uma semana que comecei a responder anúncios do site. Até agora respondi a 18 anúncios, mas só hoje tive meu primeiro retorno. Ainda bem, porque eu estava ficando estressado de não ter respostas.

Outra dúvida crucial é: Quanto eu vou pedir de salário? Se eu pedir muito, posso acabar "acima do mercado" e não conseguir um emprego. Se for pouco, posso estar me vendendo barato. O problema é que normalmente o salário é perguntado antes da entrevista. Para responder cada anúncio de emprego neste site é necessário preencher um questionário. A maior parte deles tem a questão: "Qual sua pretensão salarial? Não responder 'A combinar'". Decidi, na grande maioria das vezes, não responder um valor, mas colocar algo mais genérico que signifique "a combinar".

Para mim, o salário é um fator que depende de muitas coisas: Qual o cargo, as responsabilidades, o tipo de trabalho, a carga de trabalho, a necessidade de disponibilidade, a localização da empresa, se vou trabalhar em um lugar fixo ou visitar clientes, se preciso usar meu carro, etc. Além disso, também existe o salário indireto: Vale refeição, vale alimentação, participação de resultados, etc.

Ainda estou dando uma polida no histórico, mas pretendo ter o texto definitivo em breve. Não aguento mais escrever currículo!!!

Amanhã terei minha primeira entrevista em uma empresa de seleção. Se der certo, depois farei outra na empresa que realmente possui a vaga. Agora é só torcer!

Eu li... "Ace the IT Resume"


Eu procurava um livro com dicas sobre currículos e encontrei este, específico para a minha área (Informática).

O livro é de 2007, mas eu desconfio que seja uma versão requentada da edição de 2001. Os comentários sobre o mercado de trabalho são pré crise de 2008, mas o objetivo continua o mesmo.

O livro examina cada parte do currículo e dá dicas como abordá-las. Os exemplos são sempre na área de TI, o que torna os conceitos mais familiares. Depois dá dicas sobre o que fazer com situações atípicas (períodos parados, mudança de profissão, etc). Também possui dicas sobre formatação true type e ASCII
e possui um apêndice com exemplos de anúncios e currículos.

Ele também possui um capítulo sobre cartas de apresentação. Eu não o li, pois não usamos isso no Brasil. Entendo que no Canadá será útil.

Um ponto que achei fraco é que ele poderia ter mais exemplos. Normalmente só há um exemplo de cada situação.

A minha avaliação é que supriu minhas expectativas.

sábado, 15 de outubro de 2011

Moradia pré-imigração

Minha senhoria decidiu vender o apartamento ainda este ano. Nós tínhamos combinado que eu poderia ficar até imigrar, contanto que a avisasse com dois meses de antecedência.

Como ela quer os ovos e o omelete, vai deixar para pedir para eu sair quando ela conseguir vender. Eu espero imigrar em março, portanto terei potencialmente quatro meses sem ter onde morar. Até o meio de agosto eu tinha uma moradia backup, mas autorizei outra pessoa morar lá. Duas semanas depois,  nas vésperas da minha viagem, fui informado desta reviravolta de planos. O lugar tinha ficado uns três anos desocupado. Que azar de timing!

O problema é alugar um lugar por tão pouco tempo: Não acredito que alguém desconhecido irá alugar para mim por tão pouco tempo. Portanto, terei que fazer um contrato normal e potencialmente pagar a multa rescisória. E quanto menor o período que eu ficar, maior a multa! O pior é que eu tinha pensado nisso em março deste ano e a proprietária tinha dito que tinha desistido de vender e que eu poderia ficar. Quem manda ser crédulo?

Até tenho algumas pessoas que poderiam desocupar um quarto na casa delas e nos acolher, mas acho abuso ficar tantos meses. Além disso, minha mulher iria me enlouquecer.

Uma possibilidade é apostar que ela não consegue vender até lá. Seria o melhor cenário, mas se ele não acontecer, ficarei em uma situação pior ainda.

Outro grande agravante é que mudar de casa dá um trabalho enorme: Garimpar outro lugar, negociar contrato, fazer a mudança e fazer a alteração de endereço em todos os lugares importantes (Consulado do Canadá, banco, cartões, etc). Este tempo poderia ser bem melhor empregado.

O que realmente me enlouquece é a indefinição de datas: Um dia o apartamento será vendido e um dia o visto vai sair. Quem consegue se planejar deste jeito?

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Canadá: Impressões como visitantes - Língua

Como turistas, nosso principal contato com as pessoas é no comércio e em restaurantes. Eu esperava ser atendido de vez em quando por pessoas bilíngues. Eu achei que seria principalmente em shoppings, grandes lojas e restaurantes no centro de Montreal, em Gatineau e na parte turística de Ville de Québec.

Como meu francês não é tão bom assim, os atendentes passavam a falar em inglês quando a conversa não fluia bem. Acredito que pelo menos 95% das pessoas com quem falei falavam inglês. Isso inclui a garçonete em um restaurante simples em Verdun, os balconistas da farmácia e da loja de conveniência em Ville de Quebéc, os atendentes da praça de alimentação de um shopping no fim do mundo em Gatineau e, pasmem, até um "operário-mendigo" que veio pedir dinheiro para o ônibus em Rosemont.

A minha sensação é que, pelo menos nas cidades que eu visitei, é mais difícil arrumar um emprego um pouco melhor se você não falar as duas línguas. Outra constatação foi que o meu francês precisa evoluir muito até que eu consiga entender os nativos conversando entre si.

Um ponto curioso sobre Ottawa: Como minha mulher não fala inglês, ela falava francês com as pessoas. Lá foi o contrário: Quase ninguém falava francês.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Canadá: Impressões como visitantes - Transporte e moradia

Voltei hoje de uma viagem ao Québec como turista. Fomos ver o quanto a grama do vizinho é mais verde. Eu já tinha visitado Toronto em 2001, mas minha esposa não tinha ido ainda. Como é uma decisão radical largar tudo e ir morar em outro país, fomos fazer uma viagem de reconhecimento. Eu entendo que a visão que temos do país como visitantes é bastante limitada comparada com a de imigrantes, mas fomos procurando olhar ao menos alguns pontos relevantes.

Os pontos principais que focamos foi transporte e moradia. Inicialmente, a vida que eu procuro no Canadá não inclui ter um carro. Portanto, morar em locais com transporte frequente era o primeiro fator de escolha. Baseados nisso e em outras dicas sobre bairros dadas por brasileiros imigrantes, definimos as regiões desejadas. Procuramos anúncios de apartamentos no Kijiji nestas regiões e fomos até em frente dos prédios. Desta forma pudemos conhecer os meios de transporte e ter uma idéia geral do bairro. Claro que ver o prédio por fora não significa nada, mas era melhor do que simplesmente vagarmos por ruas escolhidas ao acaso.

Em Montreal só utilizamos metrô, portanto não sei como seria a vida com integração de ônibus. Como foi a maior cidade visitada, foi a que visitamos mais bairros: Rosemont, Outremont, Westmont, trechos de Cote-des-Neiges, Verdun (até o Parque Angrignon), além do centro. Os bairros "*mont" me lembram aquele ditado: "Há um mundo melhor, mas ele é bem mais caro". Achei que Westmont é um bairro de cair o queixo. No final do Boulevard de Maisonneuve tinha uma Lamborguini estacionada na rua, o que eu considerei uma dica que morar naquele bairro talvez não caiba no meu poder aquisitivo. Eu gostei bastante de Verdun, principalmente entre as estações Jolicoeur e Angrignon. Não me sinto qualificado para comentar Cote-des-Neiges, pois aparentemente o bairro é bastante heterogêneo. O centro me lembra o Brasil: Lojas de grife e muitos mendigos.

Em Gatineau, no primeiro dia visitamos Hull e no segundo alugamos um carro e visitamos Gatineau, Aylmer e Manoir des Trembles. Não usamos transporte coletivo, pois lemos que lá é complicado depender de ônibus. Hull é legal no trecho extremamente perto de Ottawa. Em alguns quarteirões para frente já fica bem mais bizarro. Manoir des Trembles parece o cenário de "Desperate Housewives". Aylmer e Gatineau (região do Boulevard de Maloney) são lugares razoavelmente bonitos e pacatos. Acho que deve ser uma cidade boa para viver, mas tive a forte impressão que realmente seria necessário ter carro.

Em Ville de Québec focamos nossa busca no trecho percorrido pelo Metrobus do centro até Sainte-Foy. Deu para entender porque tantos brasileiros imigram para uma cidade tão pequena. A sensação de qualidade de vida é muito grande: Muito verde, pouco trânsito e pouco stress. Os motoristas de ônibus parecem felizes. O problema é que não é rápido: Leva cerca de meia hora para ir de ônibus de Sainte-Foy até o centro. Na terça-feira fomos até o ponto final da linha 800 do Metrobus: É no meio do nada, um lugar onde só tem mato. Literalmente. Eu esperava um terminal de transferência com diversas plataformas e ônibus indo para mais longe ainda.

Escolhi estas cidades por acreditar que elas são as melhores opções para arranjar emprego e também devido à minha visão pré-concebida de como elas seriam: Montreal seria a metrópole onde há emprego, mas eu gastaria uma hora e meia para ir de casa ao trabalho e todo mundo lá seria árabe, indiano ou chinês. A Ville de Québec seria uma cidadezinha minúscula onde ninguém falaria inglês. Gatineau seria uma cidade dormitório sem empregos e economia própria, onde todo mundo iria trabalhar em Ottawa.

Nesta viagem constatei que todas estes preconceitos eram fortes demais: Em Montreal acredito ser viável morar a meia hora do centro usando o metrô. A proporção de "minorias visíveis" que eu encontrei foi bem menor do que eu esperava. Ville de Québec é uma cidade geograficamente muito grande e todo mundo que encontrei no comércio fala inglês. Minha impressão sobre Gatineau não mudou muito, mas talvez eu não tenha ido aos lugares corretos.

Minha conclusão foi que as três cidades oferecem estilos de vida diferentes: Montreal é a metrópole onde há muitas opções de quase tudo. Ville de Québec é uma versão mais "cidade pequena", sendo uma cidade mais Quebequense. Gatineau é mais "subúrbio", no sentido estadunidense do termo, e achei que ela é muito mais Ontário do que Québec.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

As seis suítes para violoncelo solo, de Johann Sebastian Bach

Em um post anterior, continuei o assunto dos pertences a serem levados para o Canadá. Naquela época, afirmei que eu tinha poucos objetos com grande valor sentimental, portanto eu poderia facilmente levar todos.

Mas...


Há quase dez anos atrás, após me formar na universidade, decidi estudar violoncelo para tocar as seis suítes para violoncelo solo, de Johann Sebastian Bach. Estudei a coisa por uns quatro ou cinco anos, mas, na melhor das hipóteses, eu era uns estudante medíocre. Cheguei a ter aulas sobre o prelúdio da suíte número 2, mas nunca realmente a dominei. Eventualmente eu me casei e nunca mais cheguei a estudar seriamente.

O ponto que está doendo agora é que tive uma oportunidade de vendê-lo, mas não consegui. O problema não é me desfazer do instrumento em si, mas o sonho não alcançado que ele representa. Quando eu não mais o tiver, vai significar formalmente que fracassei neste sonho no qual investi tanto anos de estudos.

Por outro lado, por vários motivos não acho realista levar um violoncelo na imigração. Primeiro, não dá para levar como bagagem, já que excede os limites das companhias aéreas. Segundo, qualquer forma de levar provavelmente acabaria muito cara, não valendo a pena financeiramente. Terceiro, duvido que que eu vá morar nos primeiros tempos em um lugar acusticamente isolado o suficiente para poder estudar. E quarto, e mais doloroso, se eu não voltei a estuda até agora, não vou mais voltar.

Portanto, acho que o melhor a fazer é ter um período de luto pela morte do meu sonho e vender o instrumento.